O DIA EM QUE COMI UM CACHORRO-QUENTE COM MESSI. đŸ‡§đŸ‡·

Ou melhor: o dia em que conheci Lionel

Rosario, 2005.

Esta tradução foi realizada pelo excelente escritor e jornalista brasileiro Douglas Ceconello, que com sensibilidade e maestria soube verter a essĂȘncia destas pĂĄginas para a lĂ­ngua portuguesa.

Para meus irmĂŁos da HDF, que souberam
guardar o segredo durante todos estes anos.

Para o Negro Fontanarrosa e Juan Villoro.

Ao Diego e ao Lionel.

A primeira coisa que ensinam a vocĂȘ quando começa a escrever Ă© que uma histĂłria nĂŁo Ă© um conto. Que algo que aconteceu, por mais maravilhoso que seja, nĂŁo Ă© suficiente para construir uma boa narrativa. Todo relato, repetem os professores, precisa de uma estrutura sĂłlida, de um conflito que sustente a tensĂŁo e de um final que faça parecer que tudo o que veio antes valeu a pena. AlĂ©m disso, quanto mais ou menos vocĂȘ jĂĄ domina a base da escrita, ou pelo menos acredita nisso, começam a acrescentar mais um milhĂŁo de regras, como, por exemplo, que convĂ©m começar a histĂłria mais prĂłximo possĂ­vel do final. Que Ă© preciso apagar os advĂ©rbios. Que os personagens tĂȘm que desejar algo. Que cada cena tem que empurrar a histĂłria adiante. E o narrador – que neste caso seria eu, contando isso para vocĂȘ – nĂŁo estĂĄ ali para explicar tudo que acontece na histĂłria, porque isso Ă© entediante. Ou seja, o narrador tambĂ©m tem que saber se calar.

Bom, eu nĂŁo vou seguir nenhuma dessas regras.

NĂŁo porque nĂŁo funcionem, mas porque esta histĂłria nĂŁo nasceu para se transformar em um conto ou em um filme. Nasceu simplesmente para ser contada. Numa conversa depois do almoço, em uma viagem longa, nos intervalos mortos do trabalho; ou para ser contada a algum desconhecido que sentou no assento ao lado. E talvez porque existem histĂłrias que nĂŁo se inventam. HistĂłrias que escolhem vocĂȘ, agarram pela camisa e lhe obrigam a vivĂȘ-las para que seja testemunha.. HistĂłrias que, enquanto estĂŁo acontecendo, nĂŁo sabem que o tempo jĂĄ começou a escrevĂȘ-las e que vĂŁo levar anos para entender a si mesmas.

E, quando nesta equação surge o nome de Lionel Messi, tudo muda. E isto que vou contar é a história daquele dia. O dia em que conheci Messi. Ou melhor dizendo: o dia em que paguei um cachorro-quente para Lionel.

★ ★ ★

Em 2005, eu jĂĄ morava em Buenos Aires e trabalhava em uma agĂȘncia de publicidade. Tinha 22 anos e hĂĄ quatro trabalhava como redator. Aprendia rĂĄpido, ganhava pouco e dormia menos ainda. Meu primeiro trabalho na publicidade foi escrever a parte de trĂĄs dos envelopinhos de sopa Knerr. AlguĂ©m teve a genial ideia de que, alĂ©m da receita – que era simplesmente acrescentar ĂĄgua quente e mexer –, seria legal se naquele espaço da embalagem colocĂĄssemos pequenas histĂłrias para que as pessoas lessem enquanto preparavam uma sopinha instantĂąnea. Assim, devo ter escrito mais de quinhentas historinhas que, muito provavelmente, ninguĂ©m jamais leu.

Com o passar dos anos, vieram outros produtos: sabonetes, cervejas, carros, celulares, companhias aĂ©reas. Campanhas que, em geral, eram filmadas em lugares espetaculares, Ășnicos, imponentes. Mas nessa Ă©poca eu nunca entrava no aviĂŁo. Se o destino era fantĂĄstico, quem viajava sempre eram os chefes. Bom, ainda Ă© assim. Faz parte do trabalho. AlguĂ©m escreve a ideia e Ă© outra pessoa que a leva para passear na Europa.

Até que um dia chegou a campanha para a Copa do Mundo. Minha primeira Copa.

★ ★ ★

Havia outras equipes de criação trabalhando na campanha hå meses. Era um desses grandes projetos que ocupavam uma sala de reuniÔes inteira, com as paredes cheias de conceitos, provas de design e rascunhos de peças gråficas desenhados à mão pendurados para todos os lados. Os vidros haviam sido tapados com papel pardo para que ninguém pudesse olhar de fora e roubar as ideias, como quando estão para abrir um novo lugar no shopping e não querem que ninguém saiba o que estão tramando lå dentro.

Eu, atĂ© entĂŁo, vinha das categorias de base, participando dos jogos no banco de reservas. NĂŁo era o garoto das grandes ideias, mas fazia rĂĄpido. Entendia os pedidos e nĂŁo perguntava muito. Servia para isso, para tapar buracos e nĂŁo fazer muito barulho. 

Naquela Ă©poca, fumava um maço de cigarros por dia e duas ou trĂȘs noites por semana dormia no sofĂĄ da agĂȘncia. Se vocĂȘ ficava trabalhando depois das dez da noite, podia pedir comida por conta da empresa. Para mim, era uma economia de sobrevivĂȘncia, economizava a janta e o transporte, mas tambĂ©m era uma forma de estar perto de onde as coisas aconteciam.

Certa madrugada, enquanto esquentava ĂĄgua para o mate, me disseram:

– Cara, vocĂȘ pode entrar no projeto da Copa?

NĂŁo foi uma convocação heroica. NĂŁo houve trombetas, nem discursos. Foi mais como uma cena tĂ­pica do futebol amador. Estava de fora olhando a partida e de repente alguĂ©m se vira e pergunta se vocĂȘ quer entrar para jogar. E vocĂȘ diz que sim, claro. Identifica quem Ă© o seu time e pergunta quem precisa ser marcado.

E, ainda que naquele momento nĂŁo houvesse forma de saber, naquela noite estava entrando no jogo mais improvĂĄvel da minha vida. Uma histĂłria que iria me perseguir por mais de vinte anos.

★ ★ ★

O cliente era a MasterCard e o problema era que nĂŁo tinha nada a ver com futebol. As cervejas, por sua vez, tĂȘm espĂ­rito de Copa do Mundo. Os refrigerantes tambĂ©m. Pertencem ao universo da mesa, do aquecimento, do grito, do encontro. Mas um cartĂŁo de crĂ©dito
 Quem levanta um cartĂŁo de crĂ©dito para comemorar um gol? NinguĂ©m. Os cartĂ”es nĂŁo sĂŁo erguidos, nĂŁo se bebem, nĂŁo se dividem. 

No entanto, a MasterCard tinha uma carta poderosa. Uma frase que todo mundo conhecia. Um conceito que estava impresso em milhÔes de cabeças e soava como se fosse familiar. Uma verdade que dividia o mundo entre aquilo que se paga e o que não tem preço. Um slogan.

Tem coisas que o dinheiro nĂŁo compra.
Para todas as outras, existe MasterCard.

★ ★ ★

A ideia era simples: era preciso usar essa construção de “NĂŁo tem preço” para falar de futebol. NĂŁo era fĂĄcil, pois o futebol nĂŁo Ă© uma lĂ­ngua que se deixe traduzir com gentileza, mas pelo menos tĂ­nhamos no time um artilheiro que podia ser usado.

A primeira etapa da campanha era com Tevez. O grande Carlitos Tevez. Naquela Ă©poca, Tevez jogava no Corinthians e era mais do que um jogador: era o fenĂŽmeno cultural do momento. Havia sido escolhido o melhor jogador do campeonato, era ovacionado nas arquibancadas e os torcedores imitavam seu corte de cabelo. Para que se tenha uma ideia, atĂ© Lula, na Ă©poca presidente do Brasil e torcedor fanĂĄtico do Corinthians, pediu para conhecĂȘ-lo pessoalmente e tirar uma foto. Era nesse nĂ­vel que estava Carlitos.

Esse primeiro comercial que fizemos com Tevez terminava dizendo: “Que o melhor jogador do futebol brasileiro seja argentino, nĂŁo tem preço”. Algo que quando foi ao ar ofendeu imensamente nossos irmĂŁos continentais, confirmando, assim, o sucesso da peça com espĂ­rito futebolĂ­stico, bem argentino. Se conseguimos incomodar um brasileiro, Ă© gol de placa. Depois, aparecia o logo da Mastercard como patrocinadora oficial da seleção argentina e a frase: “Vamos Tevez, vamos Argentina”.

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A segunda etapa da campanha seria com Riquelme. A ideia era armar todo o conceito em torno de Román. O dez da seleção. O cara que, quando recebia a bola, parecia que o tempo se abria em torno dele para que pudesse decidir. Falar de Riquelme em 2005 era falar do futebol argentino em sua forma mais pura. A pausa, o drible curto, a bola protegida com o corpo, a jogada que se cozinha em fogo baixo. Era o símbolo perfeito para uma frase como “Não tem preço”.

Mas havia um problema: Riquelme era caro. Muito caro. O dinheiro não era suficiente, e não havia a menor chance de pagå-lo em 18 vezes sem juros no cartão. E, como bem sabemos, uma campanha de publicidade não é obra de Nossa Senhora: se o orçamento não fecha, não hå como fazer. Então, de um dia para o outro, ficamos com uma metade da campanha resolvida e a outra vazia. Sem camisa 10. Sem protagonista. Sem arremate.

Aí começou a peregrinação.

★ ★ ★

Cada um propunha alguĂ©m conforme suas preferĂȘncias clubĂ­sticas. Quem torcia para o River, pedia Aimar ou Saviola. Os torcedores do Boca diziam que Tevez jĂĄ era suficiente. Eu, nascido em Rosario e canalla doente, sugeria alguns nomes por puro patriotismo municipal: Killy GonzĂĄlez, Pato Abbondanzieri, Mascherano. Havia bons jogadores nessa seleção, mas nenhum tinha o peso simbĂłlico de carregar o paĂ­s nas costas em uma propaganda de Copa do Mundo. NinguĂ©m oferecia esse “centro de gravidade” que Riquelme tinha. 

AtĂ© que apareceu Messi. NĂŁo como epifania. Era mais uma possibilidade que ficou pairando no ar. Lionel Messi vinha de arrebentar no tĂ­tulo Mundial Sub-20, mas no Barcelona ainda jogava com a camisa 30 e entrava no final do jogo, se Ă© que entrava. Tinha 18 anos e nem sequer estava confirmado na Copa do Mundo. Apostar nele como solução era uma mistura perfeita entre intuição e orçamento. Se desse certo, muito bom. Se ele nĂŁo fosse para a Copa, bem, seria um comercial que algum dia lembrarĂ­amos como uma experiĂȘncia estranha com um garoto canhoto que tinha pinta de craque.  

E foi assim que a campanha que ia ser com o Riquelme acabou apontando para o Messi.

★ ★ ★

Quando a conversa foi se acomodando em torno de Messi, o prĂłximo passo era ver se era possĂ­vel falar com ele. NĂŁo havia representante, nem assessoria de imprensa para onde ligar. NĂŁo havia empresĂĄrios com perfis pĂșblicos. Havia apenas nĂșmeros de telefone anotados em guardanapos que eram passados de mĂŁo em mĂŁo e a suspeita de que, se alguĂ©m ligasse, podia pegar mal. AlguĂ©m disse que o pai era o responsĂĄvel. Que era uma pessoa sĂ©ria. Que nĂŁo gostava de enrolação. E, que se ele dizia que sim, o resto se ajeitava. 

O produtor tentou a sorte. Ligou. E o pai atendeu.

A conversa foi curta. Ele disse que estavam dispostos a escutar nossa proposta, mas que essas coisas precisavam ser tratadas pessoalmente. Nada de mandar roteiros por e-mail, nem orçamentos por fax. Era preciso ir conversar. E somente entĂŁo apareceu a informação que fazia tudo ser possĂ­vel: Messi estava em Rosario. Como em todo mĂȘs de dezembro. Tinha voltado para passar as festas de fim de ano com a famĂ­lia. 

O meu chefe tinha que viajar ao Brasil para seguir as filmagens com Tevez, entĂŁo resolveu a questĂŁo rapidamente: “Vai vocĂȘ para Rosario e acerta tudo. Aproveita que vai para o fim de ano”.

Era verdade, eu também sempre passava o fim de ano lå. Tinha onde dormir, então não era preciso pagar hotel. Era pråtico. E barato. Resultado: de repente, sem nem levantar a mão, acabei sendo o responsåvel por sentar diante do pai de Messi para ver se ele aceitava que seu filho jogasse no nosso time.

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Viajamos em quatro numa caminhonete alugada. O diretor, que tambĂ©m fazia o som porque nĂŁo havia orçamento, a diretora de arte, com uma maleta de coisa que “de repente servem”, o produtor e eu. NĂŁo tĂ­nhamos roteiro. A ideia era bĂĄsica: se o pai dissesse que sim, levarĂ­amos ele ao Monumento Ă  Bandeira para filmĂĄ-lo fazendo embaixadinhas. Depois descobrirĂ­amos que frase encaixava com aquela imagem. Uma campanha mundial construĂ­da com a lĂłgica mais argentina que existe: o “vamos vendo”. 

O que todos sabĂ­amos, embora ninguĂ©m dissesse em voz alta, era que se Pekerman, tĂ©cnico da seleção, nĂŁo levasse Messi para a Copa, corrĂ­amos o risco de perder a conta da MasterCard. NĂŁo era apenas filmar algo que depois nĂŁo seria veiculado: era gastar um monte de dinheiro em contratos e autorizaçÔes que, depois, nĂŁo terĂ­amos como justificar.  

Jorge combinou de nos encontrar no posto da YPF na entrada da cidade. Um posto de gasolina qualquer. Naquele momento me pareceu lógico: um lugar de passagem, fåcil de encontrar. Mas, quando penso hoje, acho graça. Lionel Messi, o homem que acabaria assinando contratos que movem economias, o jogador mais importante da história, começou sua primeira campanha mundial em um posto de gasolina. Uma mesa de fórmica, um café morno, cheiro de desinfetante de piso. Se me contassem vinte anos depois, não acreditaria. Mas lå fomos nós.

E era eu que tinha que falar.

★ ★ ★

Jorge jĂĄ havia chegado. Reconhecemos logo porque Messi Ă© parecido com o pai. A mesma expressĂŁo, os mesmos olhos. AlĂ©m disso, havia nele algo muito familiar. NĂŁo “familiar” de famoso. Familiar do tipo de pessoa que se pode encontrar em qualquer churrascaria da zona sul num domingo Ă  noite. Nos cumprimentamos. Aperto de mĂŁo rĂĄpido, beijo no rosto e logo ao trabalho.

Nos sentamos numa mesa perto da janela. Pedimos café. O produtor falou pouco. Eu tinha que explicar. Jorge disse que Leo estava em casa comendo churrasco com os amigos. Nada de mais. Era dezembro em Rosario e é isso que se faz: comer churrasco e encontrar amigos.

Ele me perguntou qual era a ideia. E eu disse a verdade: não havia uma ideia pronta. O que tínhamos era uma intuição. Disse que eståvamos acompanhando Messi desde as categorias de base e que sentíamos que algo especial estava acontecendo. Que quando ele pegava na bola, o jogo mudava de ritmo. E que voltar a imaginar um craque argentino era um sonho que podíamos vender, mas que também seria uma pressão enorme sobre ele.

TambĂ©m disse a Jorge que a campanha usaria a frase de MasterCard, aquela do  “NĂŁo tem preço”, mas que o importante nĂŁo era o slogan: era ele. Ele em Rosario. Antes que deixasse de ser um garoto para se transformar em pĂŽster. Antes que se tornasse inalcançåvel. 

Jorge escutava. Nada do que era dito o surpreendia.

– VocĂȘ Ă© rosarino, certo?

Disse que sim.

– Quantos anos tem?

Vinte e dois.

– Melhor. Assim, Leo se sente mais à vontade.

Entregamos o contrato. Ele leu. Fez as perguntas lĂłgicas: quanto, quando e como. Dissemos a verdade: nĂŁo tĂ­nhamos muito dinheiro porque Tevez tinha levado quase todo o orçamento. Que filmarĂ­amos com uma equipe pequena para investir tudo que restava no cachĂȘ de Leo.  

EntĂŁo, ele foi direto ao ponto:

– VocĂȘs sabem que ele ainda nĂŁo estĂĄ confirmado na Copa, certo?

Dissemos que sim.
Perguntei o que ele achava.
Deu de ombros

– Eu já comprei passagens para toda a família. A dele não vou comprar.

Pronto.
Isso era tudo que era preciso saber.
Antes de levantar, pegou um envelope pardo e me deu.

– Pegue. Veja se serve. SĂŁo gravaçÔes de Lionel desde os trĂȘs anos.

Hoje todos jĂĄ vimos, umas mil vezes, Messi jogando bola quando era criança. Naquele momento nĂŁo. Aquele material era ouro puro. Era como ver uma chama antes que ela incendiasse o mundo. 

E nĂłs o tĂ­nhamos nas mĂŁos.

★ ★ ★

Dentro do envelope havia dois DVDs com horas de vídeo, embaixadinhas com uma laranja, gols em campinhos de terra, dribles em espaços impossíveis.

O que mais impressiona nessas imagens, vendo hoje, Ă© a familiaridade que me provocam. É possĂ­vel observar um menino de oito anos fazendo os mesmos movimentos que depois vimos em finais de Champions League. O mesmo canhotaço, a mesma diagonal, a mesma comemoração. Como se fossem ensaios de algo que ainda nĂŁo sabia que iria acontecer.

Se vocĂȘ olhar com calma vai encontrar os gols que depois ele marcou no Getafe, deixando adversĂĄrios pelo caminho desde o meio-campo como se continuasse se esquivando dos pedregulhos no campinho do Grandoli. Vai encontrar a obra de arte contra o Bayern, naquela noite em que deixou Boateng esparramado na grama do Camp Nou antes de dar uma cavadinha sobre Neuer com uma sutileza ridĂ­cula. Vai ver as disparadas furiosas contra o Real Madrid, passando por quatro marcadores no Santiago BernabĂ©u naquela semifinal de Champions, levando a bola costurada Ă  chuteira esquerda enquanto os pontapĂ©s passavam no vazio. 

E se prestar ainda mais atenção ao jeito como, desde pequeno, abaixava a cabeça e jogava o corpo para aguentar os empurrÔes dos garotos mais velhos, vai encontrar a mesma teimosia maravilhosa com que, quase trinta anos depois, levou Gvardiol para passear pela ponta direita no Catar antes de rolar a bola para Juliån. Tudo jå estava ali, naqueles dois DVDs de må qualidade. O futuro inteiro do futebol mundial guardado dentro de um envelope pardo que me deslizaram por cima da mesa de fórmica, no posto de gasolina da entrada de Rosario.

Jorge se levantou. Nos disse que fĂŽssemos indo para a casa, que ele avisaria. Perguntamos quanto tempo tĂ­nhamos. Ele sorriu, mas sem ironia.

– NĂŁo sei. À tarde ele tem um aniversĂĄrio. Tentem fazer com que dĂȘ tempo de chegar.

E lĂĄ fomos nĂłs. Para a casa de Messi, em pleno dezembro. Sem roteiro. Sem ideia definida. Com um pouco de medo e um pouco de entusiasmo.

★ ★ ★

A casa ficava no bairro Las Heras, na região que todos conhecem como La Bajada. Ruas que descem até o rio, tranquilas. Quando era pequeno, eu ia muito nesse bairro para jogar basquete, então jå conhecia bem a paisagem. Cães dormindo no meio da rua, vizinhos tomando mate na calçada. Rosario em sua versão de um grande povoado.

Celia abriu a porta. Nos convidou para entrar, mas respondemos que nĂŁo. Ela insistia, como insistem todas as mĂŁes. O produtor era quem puxava o freio. Dizia que, se entrĂĄssemos, perderĂ­amos o dia entre um choripĂĄn e a conversa Ă  mesa. E era verdade. Eu estava louco para comer alguma coisa, mas se cruzĂĄssemos aquela porta nĂŁo filmarĂ­amos mais. Para isso servem os produtores: para dizer nĂŁo quando a gente diria sim.

– Bom – disse Celia –, como vocĂȘs quiserem. – Mas, se servir, podem ir filmando o campinho da esquina. Foi ali que Lionel começou a jogar bola.

Mais uma vez, a mesma histĂłria. Hoje todo mundo conhece esse campinho, mas naquele momento era apenas um potrero. A mĂŁe do Lionel jĂĄ sabia que aquela esquina tinha um valor que nĂłs ainda nĂŁo entendĂ­amos. Talvez achasse que nĂŁo servia para o comercial, mas para algo ainda mais importante. Foi como se nos dissesse: “VĂŁo, filmem. Depois vocĂȘs vĂŁo me agradecer”. 

Fiquei na calçada olhando para a esquina e nem tinha terminado o cigarro quando a porta se abriu de novo.

– Já estamos prontos –, disse ela. – Vamos?

★ ★ ★

Messi saiu todo desarmado – literalmente. Os cadarços soltos, o cabelo molhado, a pele suada de quem tinha acabado de comer um churrasco. Com certeza, cinco minutos antes estava sem camisa, tomando banho de mangueira para aguentar o calor. Nos cumprimentou como um sobrinho tĂ­mido que aparece de repente em um almoço de famĂ­lia. Camisa da Argentina, bermuda da AFA e um par de chuteiras da Nike que hoje quase ninguĂ©m mais lembra. Porque Ă© muito louco pensar agora, mas nas categorias de base do Barcelona ele usava Nike. A marca que apostou tudo em Jordan, Federer e Tiger, mas nunca jogou suas fichas em Messi.

– Vamos indo? –, perguntei

– Onde vamos? – disse Celia

– Pensamos em filmar no Monumento à Bandeira.

– Ah, adorei –, disse Celia

E subimos os seis na caminhonete. Eu me acomodei na parte de trĂĄs, como um cachorro, espremido entre as cĂąmeras e as bolsas. Era um dia perfeito. Pleno dezembro. Quase duas da tarde. Com sorte, ainda terĂ­amos trĂȘs ou quatro horas de luz.

★ ★ ★

Quando chegamos no Monumento, a primeira coisa que fizemos foi preparar os equipamentos. O sol batia forte, quase de frente. Disparado, o pior horĂĄrio para filmar porque estoura a imagem. Mas era o que tinha. JĂĄ estĂĄvamos improvisando mesmo. Messi ficou de lado, esperando. NĂŁo sabia bem o que fazer com as mĂŁos nem para quem olhar. 

Me aproximei para tirĂĄ-lo dessa espera incĂŽmoda. Tentei deixar o momento mais fĂĄcil. 

– A ideia Ă© muito simples. VocĂȘ pega a bola, faz embaixadinhas e a gente filma de vĂĄrios Ăąngulos. Queremos aproveitar os murais, as escadarias. Nada complicado.

Me disse que sim com a cabeça.

– Vou precisar falar? – perguntou, coçando a sobrancelha.

– Ainda nĂŁo sei. VocĂȘ prefere nĂŁo falar?

Fez um gesto curto, como quem dizia que sim

– Pronto, então sem falar. Não se preocupa.

Eu sabia que tinha que pegar leve com ele. Não porque fosse o Messi, nome que naquele momento não significava nada especial, mas porque era um garoto que a gente tinha acabado de tirar de um churrasco com amigos. Além disso, para a grande maioria dos mortais, tímidos ou não, as cùmeras sempre intimidam. Ainda mais em um comercial que vai passar na televisão um bilhão de vezes. E aquele, acho eu, era sua primeira participação como protagonista.

Começamos? –, disse pra ele

Ele pegou a bola e jå ficou claro. Podíamos começar.


★ ★ ★

Ingresso "A Gloria" para a Cripta de Belgrano.

O Monumento Ă  Bandeira sempre impressiona, mesmo que jĂĄ se tenha visto ele mil vezes, porque nĂŁo Ă© preciso exagerar nada, simplesmente estĂĄ ali, enorme, branco e brutal. 

Tiramos do carro as cùmeras, as bolas e as garrafinhas de ågua. Pedi para o Lionel que fosse se ajeitando e que começasse a se mexer um pouco enquanto a gente buscava o enquadramento. Logo, apareceram os curiosos.

– Quem Ă©?

– Um garoto de Rosario que joga no Barcelona.

– No Barcelona? E qual Ă© o nome?

– Lionel Messi.

– Ah, veja só.

E continuaram em frente com seus mates.

Apontei um lugar para ele começar, no meio da esplanada. Ainda sem murais, sem escadarias, sem nada de especial. Apenas ele e a bola.

– Tenta aqui –, disse pra ele

E começou. Ao natural. Como se fosse um treino qualquer. Embaixadinha, controle, alguns toques mais altos para se aquecer. Enquanto isso, a gente ajustava a lente, a luz e a distùncia. Ele não falava, não perguntava, não opinava. Fazia o que precisava ser feito.

O mais surpreendente, quando penso hoje, é que ninguém estava olhando pra ele. Messi com a camisa da seleção argentina jogando bola no Monumento à Bandeira e as pessoas passando ao lado como se ele fosse apenas mais um turista.

Algo que hoje seria impossĂ­vel.

★ ★ ★

Mudamos ele um pouco de lugar para deixå-lo de frente ao mural de Belgrano. O grande, aquele que ocupa quase toda a parede do Monumento. São metros e metros de mårmore travertino com um relevo tão profundo que obriga a gente a erguer os olhos. Uma superfície imensa, esculpida com figuras que parecem sair da pedra, como se fossem continuar avançando.

Manuel Belgrano sobre o cavalo, a bandeira erguida e os soldados logo atrås. Não é preciso exagerar em nada: estå tudo ali, e aquilo jå impÔe respeito só por existir.

Joguei a bola para ele mais uma vez. E entĂŁo aconteceu algo que, ainda hoje, me provoca um arrepio estranho.

Era o Messi, bem no meio do Monumento, muito jovem e meio magricela, fazendo embaixadinhas. Acima dele, Manuel Belgrano. Enorme, rĂ­gido, olhando para ele. Belgrano vendo Messi brincar com a bola. Uma metĂĄfora que, de tĂŁo cafona, emociona. SĂ©culos e dimensĂ”es diferentes alinhados numa mesma reta. O gesto mĂ­nimo de um garoto e a imobilidade monumental de um herĂłi nacional, um diante do outro, unidos por uma bola que subia e descia como se marcasse o compasso de um hino que ainda nĂŁo tinha letra, mas jĂĄ tinha nome. Um ponto branco seguindo sua prĂłpria partitura. A frase cortada em sĂ­labas, a arquibancada distante, o canto que um dia chegaria. "Meeee... ssiii... Meeee... ssiii..." Aquela mecĂąnica tranquila que, se a gente nĂŁo mandasse parar, poderia continuar fazendo embaixadinhas por mais trĂȘs IndependĂȘncias.

E sei que nĂŁo estou inventando nada, porque tenho a foto.

Lionel Messi de frente para Belgrano, os dois vestindo a camisa da Argentina. Um com uma espada na cintura. O outro com uma bola nos pĂ©s. Hoje olho para essa foto e penso: isso nĂŁo se repete. NĂŁo porque exista um destino traçado nem nada desse tipo. Simplesmente porque essa combinação — Messi antes de ser Messi; Belgrano, firme e leal Ă  sua pĂĄtria; o Monumento vazio — Ă© uma daquelas cenas que acontecem uma Ășnica vez, sem possibilidade de uma segunda tomada.

★ ★ ★

Quando já fazia quase uma hora que estávamos filmando, o diretor se aproximou de mim com uma cara de desespero e começou a apontar para o Lionel com o queixo. Ficava jogando a cabeça naquela direção e depois me olhava com os olhos arregalados, como quem dizia: “Vamos, cara, presta atenção
não está vendo o problema que eu estou vendo?”

Puta que pariu.

Messi estava usando uma camisa da Adidas em um comercial da MasterCard. 

Também não era uma tragédia, mas aquele tipo de erro que faz as pernas tremerem um pouco e ninguém quer assumir como seu.

Ficamos todos quietos por alguns segundos. Aquele silĂȘncio em que ninguĂ©m sabe se fala alguma coisa ou finge que nada estĂĄ acontecendo. A diretora de arte abriu a bolsa e começou a remexer lĂĄ dentro, como se realmente pudesse aparecer uma camisa lĂĄ dentro. Cabos, fita adesiva, um pedaço de pano. Nenhum milagre.

Nos entreolhamos. NĂŁo havia alternativas. O Ășnico com mais ou menos o mesmo porte fĂ­sico era eu, mas vinte centĂ­metros mais alto. Por reflexo, e por vergonha, tirei a camiseta branca que estava usando. A mesma com que havia dormido, viajado e suado. Fininha e meio transparente de tanto lavar.

– Experimenta essa –, eu disse

Messi a vestiu e a gente começou a rir. Ficava enorme nele. Parecia Messi de camisola fazendo embaixadinhas. Não dava.

O produtor disse que podia ir até a avenida comprar outra, mas Celia surgiu com a solução mais lógica do mundo, aquela que só uma mãe consegue oferecer em situaçÔes desesperadoras.

– Lá em casa o Lionel tem um monte de camisetas. Por que não vamos e pegamos algumas? Afinal, ele sabe quais ficam bem nele.

EntĂŁo aconteceu uma coisa muito estranha, quase cĂŽmica. Uma espĂ©cie de movimento sincronizado entre os quatro. O produtor, a diretora de arte, o diretor e Celia dizendo: “sim, vamos
 vamos, isso
 vamos, vamos”, como se tivessem ensaiado sem nunca terem visto um roteiro.

– VocĂȘs vĂȘm juntos ou esperam aqui? – nos perguntaram.

Pensei que teria de voltar a me enfiar na parte de trås da caminhonete, espremido entre cabos e tripés, naquele calor insuportåvel de dezembro, e disse:

– A gente fica.

EntĂŁo eles se foram.
EstĂĄvamos sozinhos.
Messi e eu.
No Monumento Ă  Bandeira.
Com uma bola e duas garrafinhas de ågua para não morrermos de desidratação.

★ ★ ★

O silĂȘncio que ficou quando a caminhonete dobrou a esquina era pesado. NĂŁo pesado no mau sentido, mas um vazio. De repente, o barulho do motor desapareceu, as vozes dos outros organizando o caos foram embora, e sĂł restaram o vento batendo nas pedras do Monumento e o ruĂ­do dos carros que passavam ao longe, por acaso, pela avenida Belgrano.

Messi ficou parado no mesmo lugar, com a bola embaixo do pé. Olhava para o rio, ou para o nada. Eu me encostei num dos paredÔes de pedra tentando buscar um pedaço de sombra que simplesmente não existia. Fazia muito calor.

Olhei pra ele.

Ali estava o garoto do qual todo mundo falava na agĂȘncia. O futuro. O orçamento. Ele coçou a nuca, sem jeito. NĂŁo sabia o que fazer com as mĂŁos se nĂŁo estava jogando. E eu senti que tinha que dizer alguma coisa. E nĂŁo para salvar o comercial. Foi mais por pura humanidade. Porque nĂłs dois estĂĄvamos encalhados ali, esperando que uma mĂŁe e uma equipe de filmagem improvisada voltassem com uma pilha de camisetas usadas.

– A gente tirou vocĂȘ do churrasco, nĂŁo foi? – perguntei.

Ele me olhou. Encolheu os ombros, um gesto mĂ­nimo.

– É
sim – disse

– Chegou a comer?

– Comi um choripĂĄn — disse, olhando para o chĂŁo –. Mas quando estavam tirando a carne vocĂȘs chegaram.

Eu me senti um merda. NĂŁo hĂĄ outro jeito de dizer.

– NĂŁĂŁĂŁo.. – eu disse –. E vocĂȘ nĂŁo comeu mais nada?

– NĂŁo. 

– Putz, desculpa, cara. A gente disse para a sua mãe que não tinha pressa, mas pelo jeito ela não queria fazer a gente esperar.

Ele respondeu que sim com sua expressão. Fez exatamente aquele gesto: uma espécie de resignação silenciosa, baixando as pålpebras e erguendo as sobrancelhas. A mesma cara que hoje eu tenho salva num sticker do celular e uso para tudo. Naquela época, não era um meme. Era um garoto de dezoito anos, com fome, para quem a gente tinha arruinado o domingo.

★ ★ ★

Me senti um miserĂĄvel. A gente, vindo da capital, chegando com nossa urgĂȘncia publicitĂĄria para interromper o ritual mais sagrado do interior: o churrasco em famĂ­lia. Conferi o relĂłgio, jĂĄ havia passado das trĂȘs horas. O sol estava insuportĂĄvel.

– Olha sĂł – disse pra ele, tentando consertar o inconsertĂĄvel –. VocĂȘ gosta de cachorro-quente?

Me olhou meio surpreso com a mudança de assunto.

– Se eu gosto?

– Sim. Não quer comer um cachorro-quente aqui na frente?

Apontei com a cabeça para o parque, do outro lado da avenida.

– Ali tem uma barraquinha de cachorro-quente, hambĂșrgueres, lomitos. Acho que existe desde antes da construção do Monumento. Para mim, o prĂłprio Belgrano comeu ali. 

Messi riu. Foi a primeira vez que vi ele rir de verdade. Uma risada rĂĄpida, de dentes Ă  mostra, mas genuĂ­na.

– Sim, eu gosto.

E aĂ­ aconteceu.

★ ★ ★

Foi um segundo. Um movimento por reflexo. Messi levou as mãos aos lados do calção da AFA. Apalpou o tecido branco. Olhou para as próprias pernas. E depois olhou para mim com uma expressão de desconcerto infantil. Não tinha bolsos. E, mesmo que tivesse, não tinha nada dentro. Nem carteira, nem celular, nem chaves. Estava ali como quando a gente saía para jogar na calçada quando era pequeno. Com a bola e a roupa do corpo. O corpo e o talento. Nada mais.

Ficou um segundo em silĂȘncio, processando a logĂ­stica da situação.

— Mas eu não tenho dinheiro — disse.

Ele disse aquilo com a maior simplicidade. Sem constrangimento, apenas constatando um fato. O garoto que, alguns anos depois, se transformaria numa multinacional de si mesmo, que passaria a movimentar o PIB de clubes inteiros, estava parado na minha frente dizendo que nĂŁo tinha uns trocados para comprar um cachorro-quente.

— Nããão, fica tranquilo — eu disse. E me veio do fundo da alma dar um tapa de leve no ombro dele, como se fosse um primo mais novo. — Eu pago. Deixa disso. Vamos.

E seguimos em direção à barraquinha. Percorrer aqueles cem metros foi estranho. Cruzamos a avenida desviando de alguns carros que vinham råpido pela avenida da orla. Ele ia com a bola na mão, caminhando com aquele passo curto e tranquilo que tem, olhando para o chão. Eu ia ao lado, fumando, pensando no que diabos diria ao meu chefe se atropelassem a maior promessa do futebol mundial atravessando a rua para comprar comida de rua.

Ninguém olhou para nós. Ninguém parou. Era domingo na hora da siesta, e Rosario dormia.

★ ★ ★

Chegamos Ă  barraquinha. Era um daqueles carrinhos clĂĄssicos da orla: carroceria branca, adesivos de refrigerantes antigos colados no vidro, cheiro de Ăłleo de fritura e de mostarda barata. O paraĂ­so. O rapaz estava limpando a chapa com uma espĂĄtula, entediado. Levantou os olhos quando nos viu chegar.

— Boa tarde. O que tem de bom, mestre? — perguntei, fingindo ser freguĂȘs de sempre.

— Lomito, hambĂșrguer, chori, cachorro-quente...

Virei para o Lionel.

— E vocĂȘ? O que vai querer? Um cachorro-quente?

Messi olhou para a placa de preços, pintada à mão. Assentiu com a cabeça.

— cachorro-quente.

— Beleza. Dois cachorros-quentes — falei para o dono da barraquinha.

— Vai com o quĂȘ?

O sujeito jå estava com o pão aberto e a salsicha fumegando na pinça. Olhou para nós esperando o pedido dos acompanhamentos, aquele momento decisivo em que se revela a personalidade de cada um. Messi não hesitou.

— Mostarda — disse.

— Só mostarda? — perguntou o dono da barraquinha, que certamente tinha maionese, ketchup, molho golf e batata palha à disposição.

— Sim, mostarda — repetiu ele.

— O meu, completo — falei.

Paguei.

NĂŁo sei em que momento vocĂȘs estĂŁo conhecendo esta histĂłria. NĂŁo sei se o Messi jĂĄ ganhou nove Bolas de Ouro ou se jĂĄ se aposentou. Mas quero deixar registrado, aqui e agora, que eu paguei o almoço para Lionel Messi. Foram moedas. Literalmente moedas.

Mas foi, sem dĂșvida, o melhor investimento da minha vida.

★ ★ ★

Pegamos o cachorro-quente, embrulhados naquelas folhas de papel encerado que nĂŁo limpam absolutamente nada, e fomos procurar uma sombra. Sentamos debaixo de umas ĂĄrvores que existem no parque. SĂŁo tipas. As tipas. Árvores enormes, de troncos escuros e galhos retorcidos, que fazem uma sombra espetacular, bem fechada. Mas tĂȘm uma particularidade que todo rosarino conhece: no verĂŁo, elas choram. Cai um pinguinho constante, uma espĂ©cie de orvalho pegajoso que nĂŁo Ă© chuva. É da cigarrinha que vive nos galhos.

Para nós, isso não fazia diferença. Estamos acostumados a que a natureza chore um pouco em cima da gente. Sentamos na grama, com o rio Paranå ao fundo, marrom e calmo, correndo com a indiferença de sempre.

Dei a primeira mordida no cachorro-quente e percebi que eu tambĂ©m estava morrendo de fome. Ele comia em silĂȘncio, olhando para o rio. Eu o observava de canto de olho. Tentava nĂŁo ser invasivo, respeitar aquele silĂȘncio que ele dominava tĂŁo bem. Mas, ao mesmo tempo, a situação era maior do que eu. Estava comendo um cachorro-quente com o garoto do Barcelona. Eu precisava dizer alguma coisa. Quebrar o gelo de um jeito que nĂŁo fosse falar do tempo.

— Cara... — eu disse, mastigando. — Eu tambĂ©m sou de Rosario.

Messi parou de comer por um instante. Virou a cabeça e olhou para mim.

— Ah, Ă©?

— É. Mas sou do Central.

Um meio sorriso se desenhou no rosto dele. Aquele sorriso de canto, provocador, mas sem maldade. NĂŁo disse nada, mas a rivalidade acabava de se instalar entre nĂłs, ali, no meio do parque. Fez uma careta quase imperceptĂ­vel, voltou a olhar para o cachorro-quente com mostarda e continuou comendo.

Pronto. O terreno estava demarcado. Agora, sim, a gente podia conversar.

★ ★ ★

Para quebrar o gelo de vez, perguntei sobre ele.

— Deve ser uma loucura estar lĂĄ, nĂ©? Ser reserva daquele time.

Ele me contou que tinha ido muito pequeno para Barcelona. Coisas que hoje todo mundo sabe, mas que, naquela época, soavam como uma aventura exótica, um desenraizamento cuja dimensão eu ainda não conseguia compreender. Falava de La Masia, dos treinamentos, com uma naturalidade impressionante.

— E como Ă© o Ronaldinho? — perguntei. Afinal, em 2005, Dinho era o dono do futebol mundial.

O rosto de Messi se iluminou um pouco.

— Ele Ă© sensacional — disse, mordendo o cachorro-quente. — Um craque.

— Mas ele Ă© gente boa mesmo? — insisti, atrĂĄs de uma fofoca. — Ou Ă© meio estrela?

— Não, não... É um baita cara — respondeu, muito convicto. — Me ajuda bastante. Me trata muito bem.

Falamos de Eto'o, que estava jogando demais. De Deco. Era surreal. EstĂĄvamos sentados na grama, em Rosario, manchados de mostarda, falando de caras que eu sĂł via pela televisĂŁo nos fins de semana. E ele falava deles como quem fala dos colegas de escola. "É gente boa", "Ă© divertido". Era assim que ele media o mundo: se eram gente boa ou nĂŁo.

E aĂ­, inevitavelmente, o torcedor do Central falou mais alto. NĂŁo consegui me segurar.

— Cara... — eu disse. — E o Pirulazo, vocĂȘ viu?

Fazia só alguns meses. Agosto de 2005. Copa Sul-Americana. O Central eliminando o Newell's com o gol de Pirulo Rivarola nos acréscimos. A ferida ainda estava aberta, pulsando pela cidade inteira. Messi parou de mastigar e olhou para o rio.

— Sim... — respondeu. Fez uma longa pausa. — Aquela doeu.

NĂŁo disse mais nada. E eu tambĂ©m nĂŁo quis insistir. NĂŁo fazia sentido ficar tirando onda. NĂŁo era a ideia bancar o esperto. Mas gostei de saber que tinha doĂ­do. Gostei de confirmar que, mesmo estando na Europa tabelando com o Ronaldinho, o coração dele continuava no Parque IndependĂȘncia. Que a distĂąncia nĂŁo o tinha curado dessa doença maravilhosa que temos por aqui.

★ ★ ★

Justo naquele momento, passou um garoto caminhando pela orla com a camisa do Newell's. NĂłs dois ficamos olhando para ela.

— Olha lá.

— É... — respondeu ele. — É a nova. Ficou linda.

O garoto passou, e nĂłs acabamos emendando uma conversa sobre camisas de futebol. Sobre essa memĂłria visual que quem gosta de futebol tem: a gente nĂŁo lembra dos anos pelo calendĂĄrio gregoriano, mas pelo patrocinador estampado no peito.

— E as de vocĂȘs, qual Ă© a sua favorita? — perguntou, retribuindo a gentileza.

— A da Zanella — respondi, sem pensar duas vezes. — A de 1987. Topper, com o Zanella estampado no peito. Fomos campeĂ”es da SĂ©rie B e, logo depois, campeĂ”es da SĂ©rie A. Mas a que eu mais gosto Ă© a da Le Coq Sportif, de 1995, a da Conmebol. Aquele 4 a 0 no AtlĂ©tico Mineiro... Minha Nossa Senhora. Absurdo.

Ele assentia, ouvindo tudo com respeito.

— Eu gosto da Yamaha — disse. — A de 1991.

— Nossa... Sim. Timaço aquele. Bielsa, Gamboa, Llop, Martino...

— Poche, Saldaña, Zamora, Berti... CampeĂ”es na Bombonera.

— É... nos pĂȘnaltis — completei rapidamente, buscando o empate.

— CampeĂ”es — disse ele, com aquele meio sorriso de quem sabia que tinha a carta vencedora. — AlĂ©m do mais... essa camisa tem uma coisa especial.

A que o Diego vestiu quando voltou, em 1993. Ele nĂŁo precisou dizer. NĂłs dois sabĂ­amos que era disso que estava falando. Para nĂłs, torcedores do Central, aquela camisa Ă© ao mesmo tempo objeto de desejo e de Ăłdio. NĂŁo Ă© bonita, mas foi a que Maradona vestiu. Ver Deus usando a camisa do diabo foi um dos momentos mais difĂ­ceis da minha vida como torcedor.

★ ★ ★

Olhei Messi terminar o cachorro-quente e pensei nas voltas que a vida då. Nem ele, nem eu, poderíamos imaginar que, anos depois, quando Diego morresse, ele marcaria um gol pelo Barcelona, tiraria a camisa blaugrana e, por baixo, colada à pele, estaria aquela mesma camisa. A 10 do Newell's com o Yamaha no peito. E que eu, torcedor do Central, me emocionaria até as lågrimas vendo aquilo. Porque, no futebol, às vezes, a grandeza vence a camisa. Mas ali, na orla, sob as tipas choronas, era apenas uma lembrança de tecido sintético.

Ele comentou que, naquele ano, o Newell's tinha começado com uma camisa diferente, sem marca, toda vermelha e preta, que usaram apenas na primeira rodada, contra o Quilmes.

— Aquela era bonita — disse. — Limpa.

Ele tinha razão. Depois colocaram o Paladini no meio. Que, diga-se de passagem, naquele ano era o patrocinador dos dois. Central e Newell's dividindo o mesmo patrocinador no peito. Uma justiça poética da cidade.

Fez-se um silĂȘncio confortĂĄvel. JĂĄ nĂŁo era aquele silĂȘncio pesado do começo. Era um silĂȘncio de conversa depois do almoço.

— E vocĂȘ, o que faz? — perguntou do nada, limpando a boca com o guardanapo. — O que vocĂȘ tem a ver com a filmagem?

A pergunta me surpreendeu.

— Eu escrevo — respondi. — Sou redator.

Ele me olhou de um jeito estranho, como se nĂŁo fizesse sentido para ele.

— Escreve o quĂȘ? Os diĂĄlogos?

— Claro. As ideias. O que acontece no comercial.

— E o que vai acontecer neste?

NĂŁo fazia muito sentido mentir para ele.

— Olha, para falar a verdade, a gente não sabe muito bem. Estamos apostando.

Contei que a campanha precisava usar a estrutura do “Não tem preço”. Que tinha de ser algo grandioso.

Ele me escutava atento, com aqueles olhos escuros que parecem analisar tudo sem julgar.

— A questĂŁo Ă© a seguinte — eu disse. — Se vocĂȘ for convocado para a Copa, esse comercial vai passar em todo lugar. VĂŁo ver vocĂȘ atĂ© na sopa. E as pessoas vĂŁo cobrar, porque a publicidade vai colocar vocĂȘ lĂĄ em cima. Vai ser uma promessa enorme. VocĂȘ vai ter uma pressĂŁo absurda.

Messi nem piscou. Continuava olhando para o rio com uma calma que chegava a dar medo.

— E se eu não for? — perguntou.

Eu ri. Dei uma tragada no cigarro.

— Se vocĂȘ nĂŁo for, o comercial nĂŁo sai. Vai para uma gaveta. E provavelmente eu e meu chefe vamos ser mandados embora por termos gasto o orçamento em um garoto que vimos pela televisĂŁo.

★ ★ ★

Terminamos de comer. Enquanto fazia uma bolinha com o papel, lembrei do meu plano original.

— Cara, vocĂȘ sabe que acabou com a minha vida, nĂ©? — eu disse.

Messi me olhou sem entender, com os olhos bem abertos.

— Por quĂȘ?

— Porque meu plano era ir filmar vocĂȘ em Barcelona. Eu jĂĄ me imaginava passeando pelas Ramblas, conhecendo a Europa... e, por sua culpa, terminei aqui, na orla, comendo um cachorro-quente.

Ele riu.

— Fazer o quĂȘ... — disse, dando de ombros. — Rosario Ă© mais bonita.

— É... vamos dizer que sim.

Jogamos os papéis no lixo e, ao longe, vimos a camionete dobrar a esquina. Tinham trazido as roupas. Acabou o recreio. Voltamos caminhando em direção ao Monumento. Ele ia um passo à frente, com a bola debaixo do braço. Eu vinha atrås, pensando que nem a pau Rosario era mais bonita que Barcelona. Mas tudo bem. Jå eståvamos ali.

A filmagem foi feita Ă s pressas, correndo contra a luz que estava indo embora. Messi vestiu suas prĂłprias camisas, as que a mĂŁe tinha trazido dentro de uma sacola grande. Fez embaixadinhas, olhou para a cĂąmera, sorriu quando pediram. Fez tudo certo, rĂĄpido, prĂĄtico. Antes de ir embora, revirou a sacola de roupas e tirou algumas coisas.

Ele assinou para mim uma camisa do Barcelona com o nĂșmero 30 nas costas e uma bandeira da Argentina que eu tinha levado por precaução, caso precisĂĄssemos usĂĄ-la na filmagem.

NĂŁo fiquei com nada. Dei a bandeira para MartĂ­n, meu amigo fanĂĄtico pelo Newell's (que atĂ© hoje, de vez em quando, me manda uma foto ao lado do autĂłgrafo do Messi, agradecendo). A camisa dei para os meus pais. A Ășnica coisa que guardei foram as fotos daquele dia e os DVDs.

★ ★ ★

Nos despedimos, e ele entrou no carro do pai. Ia para o aniversĂĄrio. NĂłs ficamos juntando os cabos.

A equipe de filmagem voltou para Buenos Aires naquela mesma noite. Eu nĂŁo. Fiquei em Rosario para passar as festas, como estava planejado.

Naqueles dias em Rosario, antes do Natal, comecei a assistir aos DVDs que Jorge tinha me dado. Sentei em frente Ă  televisĂŁo, coloquei o primeiro disco no aparelho e apertei o play.

Eram horas de gravaçÔes caseiras. Campos de terra, gritos de pais, vento no microfone da cĂąmera. E, no meio daquela confusĂŁo, ele. Um menino pequeno, muito menor que os outros, que pegava a bola e ninguĂ©m conseguia tirar. Eu o vi cair e levantar. Eu o vi encarar caras que tinham duas cabeças a mais que ele. Eu o vi fazer gols que nĂŁo faziam sentido para um menino daquela idade. 

Passei tardes inteiras olhando aquilo. No começo, eu assistia buscando material, procurando “o corte” para o comercial. Mas, depois de um tempo, deixei de olhar como publicitĂĄrio. Esqueci a marca, o cliente, os segundos de exibição. Comecei a sentir outra coisa. NĂŁo sei se era o clima de fim de ano ou se era porque o paĂ­s vinha muito machucado depois da crise de 2001, com aquela tristeza crĂŽnica que tinha se instalado no nosso corpo, mas ver aquele garoto jogar me provocava uma sensação que nĂŁo tinha nome. 

★ ★ ★

Senti, acima de tudo, alĂ­vio. Era a confirmação fĂ­sica de que, apesar de tudo, a magia continuava existindo. Que Diego nĂŁo tinha sido o Ășltimo milagre, que a fĂĄbrica nĂŁo tinha fechado. E, pensando nisso, lembrei de algo que havia lido no primeiro ano da faculdade e que jamais tinha usado para vender nada: a definição original da palavra propaganda.

NĂŁo como usamos hoje para falar de polĂ­tica ou de anĂșncios sociais, mas no sentido original, aquele que a Igreja deu quando criou a congregação da Propaganda Fide. A propagação da fĂ©. Sua função nĂŁo era vender um produto; era avisar que havia uma esperança. Era sair para contar aos que estavam despedaçados que existia algo em que acreditar.

E era exatamente isso que eu sentia diante da televisão. Eu não precisava vender um cartão de crédito. Isso era secundårio. O que eu precisava fazer era propagar aquela fé. Precisava avisar que alguém havia chegado.

Quando voltei para a agĂȘncia em janeiro, sentei para escrever com essa ideia na cabeça e, longe de me sentir um gĂȘnio ou um iluminado, eu me sentia mais como um tradutor. AlguĂ©m que precisava colocar em palavras simples o que aqueles vĂ­deos gritavam.

Peguei a estrutura da marca, que é rígida como um contrato: algo tem preço; algo não.

Bola de couro: $30
Bolinha de tĂȘnis: $12
Um quilo de laranjas: $3

Enquanto Messi fazia embaixadinhas. Isso era o de menos. O importante era a conclusĂŁo. E ela veio sozinha. Sem rodeios. Quase descritiva.

Que exista esperança depois de Diego: não tem preço.

Escrevi e fiquei olhando para o monitor. Naquele momento, nĂŁo me pareceu uma frase brilhante. Pareceu-me justa. Era a verdade. E isso era a Ășnica coisa que importava.

★ ★ ★

O comercial saiu. Pékerman ligou para ele. Messi foi para a Copa do Mundo. E, durante meses, aquela frase e aquele rosto de menino rosarino estiveram em todos os lugares. E as pessoas, aos poucos, começaram a acreditar. A fé começou a se espalhar.

Depois... bem. Depois aconteceu a histĂłria que todos conhecemos. Vieram as frustraçÔes, as finais perdidas, as renĂșncias, os xingamentos. O tempo passou. A vida passou. Houve momentos em que pensei que tĂ­nhamos dado azar, que tĂ­nhamos colocado uma maldição nele. Que tĂ­nhamos acabado com a carreira dele ao sermos os primeiros a colocar aquele estigma sobre seus ombros.

Mas ele continuou.

Hoje, escrevo isso com a terceira estrela bordada na camisa. JĂĄ nĂŁo tenho vinte e dois anos. JĂĄ nĂŁo durmo em um sofĂĄ. Lionel tambĂ©m nĂŁo Ă© mais aquele garoto magro sem bolsos. É o dono do futebol mundial. Mas, toda vez que o vejo levantar a Copa, toda vez que vejo aquele sorriso de felicidade absoluta que ele tem agora, lembro das tipas chorando, do calor de dezembro e da mostarda no canto da boca.

Tenho as fotos no Monumento, sim. E, sendo honestos, a histĂłria em si tambĂ©m nĂŁo Ă© nada de extraordinĂĄrio. Quer dizer, Ă© engraçado ter pago um cachorro-quente para o Messi, claro. Mas, para mim, ela sempre teve mais alma de promessa do que de qualquer outra coisa. Se durante todos esses anos eu nĂŁo saĂ­ contando por aĂ­, nem tinha sentado para escrevĂȘ-la (atĂ© porque nĂŁo Ă© que agora multidĂ”es vĂŁo ler), foi simplesmente por isso.

Porque naquela tarde, antes de voltar a filmar, fiz uma brincadeira que acabou virando um acordo.

— No dia em que vocĂȘ ganhar a Copa do Mundo, eu vou contar para todo mundo que paguei um cachorro-quente para vocĂȘ.

Ele riu, olhou para mim com aquela timidez de sempre e disse:

— Beleza.

E cumpriu. Demorou, nos fez sofrer, mas cumpriu. Por isso, ter estado ali, selando aquele pacto minĂșsculo no quilĂŽmetro zero da maior ilusĂŁo de nossas vidas, isso, eu juro pela minha velha: NÃO TEM PREÇO.

NicolĂĄs Ferrario MarĂ­n
Junio de 2026
Buenos Aires

★ ★ ★★

Belgrano olha para Messi jogar. (2005)

Messi e Belgrano se olham (2005)

Minha mĂŁe ostentando seu tesouro (2026)

AGRADECIMENTOS

  1. Ao meu querido Gonza Bisio, pelo seu carinho, apoio e motivação.

  2. A Nico Hochman, pela sua revisĂŁo e crĂ­ticas.

  3. À minha mĂŁe, Amparo, que Ă© a leprosa que mais amo neste mundo.

  4. A Ezequiel Mandelbaum, meu motor literĂĄrio.

  5. A Juan Villoro, pela sua generosidade e respeito.

  6. A Tello, meu farol sonhador. Um utĂłpico de carne e osso.

  7. A todos os meus colegas daquelas épocas publicitårias na rua Viamonte 1080.

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